Sobre

Um dia, um homem, ao pedalar pelo sertão, alembrou que em um outro dia, outro homem, cavalgou por lá. Conheceu sertanejos e sertanejas e viu que as invenções de um velho narrador eram muito mais que criações, eram descobertas. Que boa parte do que se diz é o que se é. Que muito do que se descreve entre caminhos, trajetos e memórias, é o descrever de um lugar. “O sertão está em toda parte, o sertão está dentro da gente”. Mas ele muda, mas a gente muda mais. As pessoas não estão sempre iguais, vão sempre mudando, lembra? Um dia, Dona Belisária foi gente. Em outro, talvez tenha virado livro. Em um filme, quem sabe, será uma voz de um tempo-espaço. Talvez seja isso o sertão: perceber um lugar com o saber de dizer coisas como “você pega o galho da esquerda e segue três léguas sem esbarrar”. Eis um filme.

Portanto, “Você pega o galho da esquerda e segue três léguas sem esbarrar” é um projeto documental que pode se tornar um longa-metragem ou uma série documental . A ideia centralizadora será a de desenvolver uma travessia de registrar depoimentos de pessoas que um dia serviram de inspiração para João Guimarães Rosa constituir sua obra maior: “Grande Sertão: Veredas”. O que teriam a dizer os homens e as mulheres que um dia foram pers

onagens roseanos? Como eles se percebem? Como percebem o sertão? A terra? O homem? A luta diária por sobrevivência?

É um projeto de aproximação, curiosidade e afeto, deixando que os próprios personagens contem sobre sua cultura. O entrevistador não será como um especialista, antropólogo ou guia turístico olhando de fora, mas sim se aproximando e entrando na roda dos personagens, trazendo consigo o espectador. A linguagem estética segue um ritmo documental, entrelaçado com depoimentos, com momentos com falas em off, em formato de entrevistas com os personagens. A equipe pretende habitar as proximidades das casas dos entrevistados durante alguns dias, viver suas rotinas e acompanhar suas reflexões.

Filmes como “O Fim e o Princípio”, de Eduardo Coutinho, “Os Romeiros da Guia”, de João Ramiro e Vladimir Carvalho, “Nordeste: Cordel, Repente e Canção”, de Tânia Quaresma e “Andarilho”, do próprio Cao Guimarães, servirão de referências para esse projeto.

CONCEITO

Se cinema é a arte de esculpir o tempo, como acreditava o cineasta russo Andrei Tarkovski, esse projeto é a tentativa de compreender o espaço do sertanejo nesse linear da vida. O que teriam hoje a dizer os homens e as mulheres que um dia foram personagens roseanos? Como eles se percebem? Como percebem o sertão? A terra? O homem? A luta diária por sobrevivência? O registro dessa cultura imaterial permite a sua perpetuação, divulgação e documentação, portanto, também carrega uma importância patrimonial. Além do caráter de preservação da memória e da identidade cultural de um povo através de relatos da tradição oral, o projeto cria, ao mesmo tempo, uma amálgama entre literatura, realidade, meio ambiente, geografia e memória.

“Você pega o galho da esquerda e segue três léguas sem esbarrar” se apropriará de uma linguagem documental, com usos de recursos de uma câmera com tom observativo, que registra acontecimentos com a menor interferência possível na cena. A equipe tentará se fazer esquecida nas locações e não usará preparação de set para as gravações. Elas se darão onde parecer mais confortável para os entrevistados e irão durar o tempo necessário para que os equipamentos deixem de ser intrusos no contexto onde o personagem se faz à vontade [como no momento em que a equipe de Eduardo Coutinho encontra o personagem Leocádio].

O argumento para a realização do projeto surgiu a partir de uma viagem realizada pelo músico e escritor Makely Ka que percorreu a região de bicicleta durante três meses, em 2013, e estabeleceu contato com diversos moradores que farão parte do filme. Em uma travessia de linguagem poético-musical que resultou no disco “Cavalo Motor”, lançado em 2015, Makely encontrou muito desses personagens roseanos e a partir daí voltou para a cidade grande com o objetivo de retornar para filmá-los. Nesse projeto, ele assume a função de entrevistador e pesquisador.

“Você pega o galho da esquerda e segue três léguas sem esbarrar” propõe caminhar, portanto, a partir da visão de um artista urbano (Makely Ka). Assim como João Guimarães Rosa, que estudou e trabalhou em Belo Horizonte e foi buscar no sertão mineiro inspiração para criar seus contos e romances, o pesquisador/entrevistador do projeto parte da capital do estado em busca das referências de um sertão oculto, que segue por veredas, histórias e memórias.

Em janeiro de 2015, Makely Ka, Cao Guimarães e Roberto Magalhães já estiveram em alguns lugares da região, registrando alguns desses personagens. Lugares como Vila do Travessão (Distrito de São Francisco), Pindaíbas (Distrito de Buritizeiro) e Morro da Garça fizeram parte das paisagens constituintes do material de pesquisa que embasa esse projeto. Personagens como Seo Raimundo Lusmina, Dona Belisária e Seo Geraldo Nunes (fotos), contaram histórias de vida e se deixam invadir pela curiosidade do olhar urbano dos dois condutores desse filme.

O projeto se alicerça entre algumas palavras-chaves. O roteiro do documentário ou série será construído a partir de uma divisão já estabelecida por Euclides da Cunha em seu “Os Sertões” e assim, o projeto está previsto para se edificar a partir dos seguintes pilares: A Terra, o Homem e a Luta (da sobrevivência diária).

Palavras-chaves que contemplam definições e conceitos vários. Por exemplo, que imagem dá conta de retratar o sertão? Por isso, para deixar nossos questionamentos claros, vamos problematizar algumas das noções do que será o nosso entendimento histórico, político e social sobre cada uma desses pilares do filme. Ao longo das conversas com os sertanejos, a equipe buscará questioná-los sobre qual seu entendimento por esses elementos: Terra, Homem e Luta.

A rotamapa_makely

Toda a rota segue um avançar traçado pelo escritor João Guimarães Rosa em seu romance. A primeira parada será em Sete Lagoas, ponto mais ao sul onde o personagem Riobaldo visita, depois de aposentado e vivendo na sua fazenda às margens do São Francisco. Ele desce de trem para fazer um exame: “Haja? Pois, por um exemplo: faz tempo, fui, de trem, lá em Sete-Lagoas para partes de consultar um médico, de nome me indicado” (GSV, pág. 17). De lá seguimos para o Morro da Garça, cidade-personagem do conto “O Recado do Morro” para encontrar o velho vaqueiro aposentado Raimundo Lusmina. Seguindo pela diagonal noroeste vamos até a Barra do Rio-de-Janeiro, na trijunção dos municípios de Três Marias, Lassance e Buritizeiro, local onde Riobaldo encontra pela primeira vez o garoto Reinaldo: “O de-Janeiro, dali abaixo meia-légua, entra no São Francisco, bem reto ele vai, formam uma esquadria. Quem carece, passa o de-Janeiro em canoa – ele é estreito, não estende de largura as trinta braças. Quem quer bandear a cômodo o São Francisco, também principia ali a viagem.” (GSV, pág. 135). Na sequência, a equipe chega até a baldeação do rio na altura de Cachoeira do Manteiga, mas antes uma parada em Pindaíba, na fazenda Gameleira, onde a equipe encontrará com o vaqueiro Geraldo Nunes e sua mulher Geraldina.

Depois, o documentário atravessa o São Francisco de balsa e cruza a Serra de Santa Helena, passando pela fazenda São Francisco até a Várzea da Palma. Alguns quilômetros adiante está o córrego do Batistério, onde Riobaldo e Diadorim se reencontram adultos. Naquele ponto, Riobaldo entra para o bando de jagunços. “Meu cavalo era bom, eu tinha dinheiro na algibeira, eu estava bem armado. Virei, vagaroso. Meu rumo mesmo era o do mais incerto. Viajei, vim, acho que eu não tinha vontade de chegar em nenhuma parte. Com vinte dias de remanchear, e sem as trapalhadas maiores, foi que me encostei para o Rio das Velhas, à vista da barra do Córrego Batistério.” (GSV, pág. 185).

De Várzea da Palma, passando pelo córrego do Batistério, o filme chega na Barra do Guaicuí, que no livro é denominado Guararavacã do Guaicuí: “A Guararavacã do Guaicuí: o senhor tome nota deste nome. Mas, não tem mais, não encontra – de derradeiro, ali se chama é Caixeirópolis; e dizem que lá agora dá febres. Naquele tempo, não dava. Não me alembro. Mas foi nesse lugar, no tempo dito, que meus destinos foram fechados. Será que tem um ponto certo, dele a gente não podendo mais voltar para trás? Travessia de minha vida. Guararavacã – o senhor veja, o senhor escreva. As grandes coisas, antes de acontecerem” (GSV, pág. 406). Dali, a equipe segue rumo à cidade de São Francisco e, alguns quilômetros depois, na vila do Travessão, o filme encontra com a personagem Dona Belisária, no alto de seus 98 anos. Ali perto é onde ocorreu o cerco aos jagunços e a morte dos cavalos na trama do livro, na Fazenda dos Tucanos.

O documentário então segue para o norte, rumo à divisa com a Bahia para entrar no Liso do Suçuarão, deserto intransponível que o bando cruza para raptar a mulher do Hermógenes. É a região do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, na cidade de Chapada Gaúcha, onde o filme encontra a líder comunitária Damiana Campos.

A rota segue, em seguida, no sentido de Serra das Araras, onde fica o túmulo do jagunço Antônio Dó, no caminho para os Buracos e Buraquinhos. Depois, a equipe atravessa o Chapadão do Urucuia, ‘onde tanto boi berra’, para encontrar o violeiro Manoel Oliveira, lenda viva da viola de 10 cordas. De lá, o documentário ruma ao Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro, onde acontece a batalha final entre os Ramiro e os Hermógenes, às margens do Rio do Sono, que deságua no Paracatu. Ali termina a história, com a morte trágica de Diadorim. Lá, o filme conversa com Seo Sidraque, o morador mais antigo da vila, que conta histórias que ouviu de seu pai, da época dos jagunços.

Por fim, voltando do Paredão, o filme ainda passa em Pirapora para encontrar Dona Severina, que desceu de vapor nos anos 60 de Pernambuco e chegou na região para criar a família. Viúva quatro vezes, criou os filhos de todos os casamentos praticamente sozinha.